Guilherme Prado

Voce Ja Viveu Tudo Que Deveria Ter Vivido

Vi uma chamada sobre como a série Hacks rebatia a ideia de que uma pessoa de mais de 70 anos já viveu todas as experiências possíveis na vida. Não vou falar da série, já que não assisti, quero apenas comentar sobre essa ideia do termos esgotado tudo o que pode ser vivido.

Estou longe dos 70, entrei na casa dos 40 praticamente ontem, mas muitas vezes fico com a sensação de já ter vivido boa parte do que poderia…

Essa é uma sensação que vem aparecendo cada vez mais e incomoda. Em um mundo tão grande, com tantas coisas diversas, tantas habilidades a aprender, tantos lugares por visitar, praticamente infinitas possibilidades, como pode tal sensação aparecer?

Basta uma segunda para achar a resposta: o maçante cotidiano, o trabalho que suga toda a sua energia física e mental, os outros problemas que surgem semanalmente e que você precisa enfrentar somente para existir. Esgotado, física e mentalmente, o final de semana vira um espaço de recarregar a energia para conseguir encarar a próxima semana. Experiências? Só se sobrar dinheiro, só se a semana for um pouco mais calma. Para piorar e não quero me adentrar muito nesse assunto agora, já que vale um texto inteiro1, como ter ânimo para aprender uma nova habilidade quando estamos sendo forçados a acreditar que IA é a resposta para tudo? Ou quando forçam a IA em coisas que gostamos…

Bill Murrey em feitiço do tempo escondendo o rosto com uma almofada

Vivemos um “Feitiço do Tempo” que, diferentemente do que acontece com o personagem de Bill Murrey, nos envelhece, não permite que aproveitemos o que está disponível no mundo e que dificilmente conseguimos transformar em algo divertido.

A realidade é que não vivi tudo o que posso ter vivido, ninguém consegue, não importa a idade. Só que estamos presos a muitas coisas que dificultam as novas experiências.

Meio óbvio que o Capitalismo está no cerne desse problema e acabar com essa praga é boa parte da resposta ao problema. Mas enquanto isso não acontece e como definitivamente não vivi tudo que deveria ter vivido, pretendo viver muitas coisas mais e morrer com uma lista de coisas por fazer, preferencialmente sem qualquer importância.

O que venho fazendo, para tentar manter um pouco de sanidade, afastar essa apatia e curtir as experiências que sobram, é me dedicar a coisas em que a IA não afete muito ou não nos substitua2. Voltei a praticar panificação, confeitaria e culinária em geral. Tem funcionado para mim para afastar essa sensação de ausência de novas experiências. Um robo nunca tirará de mim a graça de fazer um pão ou de testar uma nova receita.


  1. A internet já foi uma fonte muito boa para aprender e estudar em geral. Hoje, infelizmente, temos que desviar de muito conteúdo lixo feito com IA ou, pior ainda, a péssima ideia de IA como professor. Parafraseando minha prima, a IA deveria ser, na melhor das hipóteses, um estagiário. ↩︎

  2. IA não substitui pessoas, mas isso não muda o fato de estarmos vivendo um momento em que pessoas e habilidades humanas estão sendo substituídas forçosamente por IA gerativa. Acredito que isso passará, mas levará algum tempo e, infelizmente, com impactos negativos e significativos para a sociedade. ↩︎